Penso que muitas pessoas, mesmo sendo cristãos, entre os quais me incluo, estão acostumadas a ouvir falar de Deus como um Ser infinitamente perfeito, mas distante do nosso quotidiano, e só acessível em situações excepcionais, ou reduzido à esfera privada da religiosidade. Vivemos assim na esperança de que, quando morrermos, somente aí, então é que realmente vamos ter uma oportunidade, talvez tardia demais, para finalmente conhecermos pessoalmente a Deus e gozar desta santa comunhão.
Aqui também cabem exceções, no caso, dos santos – vide experiências como a de Madre Teresa de Ávila, de “União com Deus”, de Irmão Lawrence “Praticando a Presença de Deus”, leitmotiv que destaca a necessidade de ultrapassarmos o nível superficial do conhecimento sobre alguém, para um conhecimento pessoal mais próprio do relacionamento entre duas Pessoas - e de outros anônimos, mas cujas vidas apresentam frutos afins.
Este conhecimento pessoal tem como pré-requisito um tipo de relacionamento que foi magistralmente ilustrado pelo teólogo Martin Buber como do tipo “Eu-Tu”, para distingui-lo de um outro tipo de relacionamento que igualmente chamou do tipo “Eu-Isso”. “Eu/tu é um encontro de pessoas vivas se relacionando de modo a se conhecerem melhor, umas às outras: eu me deixo influenciar através do dialogo; ela se torna um tu. Minhas próprias mudanças dependem deste relacionamento. Para Buber também a relação com o Deus pessoal é indispensável para alguém que não entenda por Deus um princípio, uma idéia, um conceito. O Deus Pessoa é o Tu eterno que entra em relação imediata conosco e nos possibilita entrar em relação imediata com Ele; falar de Deus é permanecer no domínio do relacionamento Eu-Isso. O Deus-Isso é reduzido a um objeto comparável a outros, possível de requisição utilitária feita em nome de um sistema dogmático, de uma religião. O crucial não é falar de Deus, mas falar com Deus”.
A importância do relacionamento pessoal para alcançar este conhecimento de Deus foi destacada por Mark Baker em seu livro Jesus o maior Psicologo que já existiu: “Jesus repetidamente mostrou que o aspecto essencial da natureza humana é a nossa necessidade de ter um relacionamento amoroso com Deus e com os outros. Por isso uma pessoa se define pelo relacionamento que estabelece com outras pessoas. Tanto em relação à saúde psicológica quanto à salvação espiritual, a chave é deslocar a ênfase do conhecimento objetivo para a qualidade da relação. A parábola do bom samaritano fala de pessoas boas e más. Jesus explica a diferença entre os dois tipos em função do relacionamento que estabeleceram com o homem ferido. Também a idéia de Jesus de que “os primeiros serão os últimos” é o oposto do individualismo. Embora Ele reconhecesse o valor inerente de cada pessoa, as pessoas só eram consideradas boas como conseqüência do seu relacionamento com Deus e com os outros. Nossa natureza essencial, de acordo com Jesus, se manifesta na relação. Nossa necessidade básica é nos relacionarmos (com Deus) e uns com os outros a fim de sermos completos.”
Creio e busco por este, que é o grande relacionamento para o qual fomos criados, e que poderá transformar nosso dia a dia, de outra forma cheio de ansiedades e inquietudes, em vida abundante, com crescimento sustentado em graça e conhecimento de Deus.
P.S. ler também o comentário oportuno de Miguelza, com o qual concordamos plenamente

Mig_Mit comenta:
ResponderExcluirTema muito interessante e que exige certos cuidados com sua compreensão/concordância.
Destaco:
1. "Vivemos assim na esperança de que, quando morrermos, somente aí, então é que realmente vamos ter uma oportunidade, talvez tardia demais, para finalmente conhecermos pessoalmente a Deus e gozar desta santa comunhão".
(“talvez” indica uma possibilidade. A Bíblia não deixa dúvida: haverá um momento futuro que todos reconhecerão que Jesus é Senhor. Entretanto, só aqueles que antecipadamente expressaram esse reconhecimento ,gozarão eternamente da santa comunhão de Deus).
2."O Deus Pessoa é o Tu eterno que entra em relação imediata conosco e nos possibilita entrar em relação imediata com Ele".
(é importante salientar que a ilustração de Buber, quanto ao relacionamento do tipo “Eu-Tu” , no que diz respeito à ser condicionante para um melhor conhecimento entre as partes, não se aplica a Deus uma vez que Ele conhece todos e tudo de todos antes mesmo da fundação do mundo).
3. "O crucial não é falar de Deus, mas falar com Deus”.
(esta afirmação traz desconforto, em vista de textos como: Mt 10:32 “Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus; mas aquele que me negar diante dos homens, também o negarei diante de meu Pai, que está nos céus”.; Rm 10:9-10 “Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação...”. Prefiro afirmar que ambos relacionamentos são essenciais: falar com Deus,para estarmos fortes espiritualmente, Mt 26:41; falar de Deus aos próximos, para que esses venham a sentir sede de falar com Deus, Mt 28:19-20 ).
4."Tanto em relação à saúde psicológica quanto à salvação espiritual, a chave é deslocar a ênfase do conhecimento objetivo para a qualidade da relação".
(a afirmação merece considerações: a salvação, na relação com a justificação, não se aplica a afirmação, pois esta é dádiva de Deus, independente de relacionamento –Ef 2:4-13; Rm 5:1. A salvação, na relação de processo de santificação, sim, é fundamental a qualidade do relacionamento com Deus – Mt 6:33, Ef 5:18, Cl 3:1).
Abraço, Miguel Mitre